
Ano bom, ano ruim: praia, democracia, USP, Sócrates e caretice
29/12/2011Pode um ano ter sido tão bom para mim e, ao mesmo tempo, tão ruim? Pode.
Explico: tou construindo uma bela casa na praia, na cidade, aliás, em que estou morando nos últimos 10, 11 meses, com raríssimas idas ao inferno paulistano. Com o pé na areia, tirei um ano sabático, em que a única preocupação foi escrever três livrinhos de filosofia para ensino médio no primeiro trimestre. E escolher azulejos e pisos e torneiras e a parte bela da obra.
Por outro lado, uma atenção dispersa como a minha teve de lidar com a inquietação acorrentada ao tornozelo, que a sucessão de acontecimentos só fez garantir seu peso. Dou um exemplo: a morte do doutor Sócrates Brasileiro tornou mais delineada a sensação de que a caretice, a ignorância atrevida, o pragmatismo instrumental mais rastaquera e o rancor reacionário tomaram conta do país, talvez do mundo (bota na conta do efeito dramático), justamente no momento em que o sistema econômico e ideológico que lhe servem de base se esfarela a olhos vistos.
Da minha juventude, guardo uma noção que era partilhada de que estudantes deveriam ser rebeldes. Ou revolucionários, vá lá. Esperava-se deles que protestassem, que fizessem greve, invadissem reitorias e outros lugares “sagrados”, pichassem paredes, carregassem cartazes desaforados em passeatas, que chacoalhassem a calmaria aparente das coisas. Um cigarrinho de maconha? Ah, qualé… era até esperado e, na pior das hipóteses, dava margem a discursos edificantes paternos e mal disfarçados risinhos por conta de um logro relativamente inofensivo à lei.
Pois veja-se lá o que rendeu um cigarrinho de maconha na USP no ano de 2011. A coisa beirou a uma unanimidade conservadora que assusta. Um dos argumentos mais utilizados foi a legalidade da coisa, como se fumar um baseado fosse crime (e não é), como se a universidade não pudesse escapar à furia normatizadora, normalizadora e “produtiva” que tomou conta de quase tudo. Os legalistas esquecem-se ou desconhecem que a lei não é absoluta, caso contrário ainda estaríamos no tempo em que bruxas eram queimadas ou nobres poderiam matar pobretões por caçarem em suas terras. A lei muda e a mudança geralmente vem em decorrência da contravenção e da discordância. Pior: posso apostar meu dedo mindinho que as mais violentas reações (“reacionário” vem daí, não custa lembrar) vieram de gente que sonega impostos, fura fila, suborna guarda de trânsito, não registra em carteira a empregada doméstica ou pratica placidamente outros pecadilhos que fazem parte da cultura nacional. Sem falar naquele súbito apreço pela ação da PM no campus, a mesma PM que mata a rodo por aí, que é uma caixa de Pandora de ilegalidades, herdada de uma ditadura militar.
Me parece tão óbvio: não é com ordem e silêncio que se faz democracia. A democracia é uma “opera aperta”, um debate sem fim, uma colisão de interesses, uma mutação permanente. Não se chega à democracia, mas se caminha relutante e barulhentamente sobre ela. Resisto ao pessimismo (careta, claro) de achar que antigamente era melhor. Prefiro acreditar que seja apenas um recorte meu, um certo olhar torto que me faz ver o reacionarismo batendo à porta; até porque este foi o ano dos protestos, do Chile à Síria, do Egito à Espanha, de Wall Street ao Xingu. Prefiro pensar que vai mudar. Para onde, pouco importa, porque assistir a uma ordem ruir, ter o caminho pela frente – e a briga – e ver as tensões soltando faísca é o que há de interessante no mundo, a despeito do choro e do ranger de dentes dos que se agarram ao corpo do falecido.
P.S.: este post é uma opera aperta também. Ainda quero acrescentar coisas, à medida em que tiver vontade. Nem falei ainda da má qualidade intelectual do discurso dos conservadores!
P.S. 2: Havia pensando em escrever sobre a má qualidade intelectual do discurso dos conservadores, mas já o fizeram – e muito bemn feito! Dá pra ler aqui: “O diálogo impossível com o conservadorismo antidemocrático”, no Dispersões, Delírios e Divagações, blog do Fabiano Camilo.










Wow! Sabia que não iria demorar tanto… mas se demorasse, viria até com cerejinha do bolo. rs. Adorei o tema, assunto deveras interessante. Decerto que ainda tenho certo apreço pela normatização. rs. (vício ganho com a profissão, sabe? rs). De toda sorte, analiso com certo pesar muitos eventos ocorrendo na sociedade, dentre eles a degeneração do pensamento. Como? Hoje não se faz mais questão de pensar, debater, analisar. Podemos dizer que infelizmente que hoje, apesar das manifestações de pensamento estourando pelo mundo, reside no mundo uma contínua e silenciosa morte da democracia. De que forma? Simples, senão vejamos. Hoje, temos uma gama de leis que em teoria serviriam para dar isonomia entre as pessoas, mas que causam reações misantrópicas. Como? É simples: temos leis pra negros, pra gays, lésbicas, idosos, crianças, cachorros, periquitos e papagaios… ouso dizer que em breve ser normal (sim, normal, caucasiano ou mesmo o famoso “pardo”), entre 25 e 35, hetero, será vítima de legis-bullying – e em breve terão passeatas para que eles também tenham uma lei. Com o perdão da palavra mas, porra! Isso não é democracia. Uma sociedade democrática não é regular todas as diferenças, mas sim tratar isonomicamente, sem análise do arquétipo – e hoje só vivemos disso: de analisar o arquétipo e achar que a vida é somente feita do que é politicamente correto. Enfim… fiz merda, salvei o comment no word e deixei o trabalho tomar conta da minha vida… rsrsrsrs sabe qdo o tesão passa e vc insiste no negócio? Então… melhor eu relaxar e esperar pra continuar depois.
Bjo Malva… sódade ducê!!! Some mais não!
Malva responde: Ih, Olívio, eu teria tanta coisa a comentar… Por exemplo, que esse conceito de “normal” é justamente o que provoca a exclusão dos que não são caucasianos e heteros. “Normal” nem sempre foi normal. É até coisa bem recente. Outro ponto é que acho uma piada um branco, hetero e do sexo masculino choramingar de perseguição. Vc faz idéia do quanto um branco, hetero e do sexo masculino tem privilégios (e o quanto eles são tão naturalizados que a gente mal nota)! No blog Escreva Lola Escreva foram publicados três posts muito legais com listas dos privilégios masculinos, dos privilégios dos brancos e dos privilégios dos heterossexuais. Por fim, não sou contra o politicamente correto, não. As relações humanas são todas permeadas por normas de conduta explícitas ou implícitas – e as regras politicamente corretas são apenas mais algumas dessas normas. Além disso, não vejo mal algum em ser menos rude, menos ofensivo, menos agressivo e mais cuidadoso com o que se diz e escreve, porque isso é educação e educação muda o mundo. Enfim… não cabe aqui ficar debatendo tudo isso, nem foi a idéia do post. ;)
Oi malva,
Legal este post e bem real… andei dizendo que nasci na época errada (estou com 28a)rsrs, pq compartilho o mesmo desprezo pela normatização do sistema e pela caótica visão social que se cala ante ele. Onde estão os revolucionários? De onde virá a voz gritante a denunciar o real sentido de democracia?
Poisé… E que cara teria uma revolução, né? Obrigada pela visita e pelo comentário, Déa.
post legal, Malva.
Gosto muito do nonsense de Lewis Carroll. Gostei da ideia da obra aberta (ambiguidade/estética/iniciativa do leitor), muito boa! Que o seu 2012 seja repleto de inspiração, prosperidade, resistência e desejo.
beijo
Malva responde: oi, Dan! O post ficou muito aquém de tudo o que anda entalado aqui. Uma hora dessas, sai. Muito obrigada e um maravilhoso 2012 procê. Beijo!