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Primeiras impressões litorâneas

01/02/2011

A primeira coisa estranha numa pequena cidade litorânea é o tempo. Seja porque as areias que o marcam estejam em casa, ou porque não há aquela piracema incessante de automóveis (cópirraite do fenômeno automobilístico: AA), o fato é que o tempo é outro, em que os afazeres compactam-se na virtualidade desse escorrer de horas, minutos e segundos. Não, segundos, não. Segundos não são contados na minha praia.

Faço compras no mercado, bebo um refrigerante desaforadamente cosmopolita em frente ao mar, compro um chapelão na lojinha pra turistas, pago umas contas no banco (argh! síndrome de abstinência de internet!), saio à cata de plugs-e-fios-e-coisas nos armazéns de tudo-um-pouco, mais um sorvete lento de banana no Rochinha, volto à casa cansada pela avenida da praia e… apenas uma hora e meia se passou.

O que houve com o tempo paulistano? Não quero nem saber.

Outra de minhas preocupações é estética, por assim dizer. Estava morrendo de medo de largar saltos altos e anéis gigantes e batom e a dignidade indumentária, mas me pego zanzando pelas ruas de bermuda e chinelos. Pra não ficar totalmente no à-vontade que enfeia, reforcei o estoque de vestidos leves, largos, longos, moles e finos que voam com o vento sem fim desta terra. Os cabelos? Quem os tem ondulados, como eu, que esqueça os pudores e se deixe descabelar/molhar/secar várias vezes ao dia.

A casa está no reino do provisório e assim ficará por um bom tempo, enquanto espero pela construção do meu château. Imóvel alugado em cidade praiana já vem mobiliada e é algo entre ofensiva e confortável a sua decoração de beliches e restos descombinados de outros lares e outras gentes. Uma mão de tinta nas paredes, um empilhamento básico de móveis na indefectível edícula e mais ou menos passa a ser a “minha” casa, com meus sofás ainda tão urbanos…

Ah, sabe o chapelão? Também voa e me faz correr atrás dele daqui pra lá. Dá umas paradinhas na areia pra me enganar e – vupt! – lá se vai de novo. Será que se eu amarrar com uma fita ficarei muito parecida com uma camponesa vietnamita?

Hoje voltei para São Paulo, com a gatinha miando sem parar dentro do carro. Voltei para três dias paulistanos, em que nem o trânsito chega a incomodar, porque já tou quase com pé na areia de novo. Iludo-me pensando que a gata irá feliz serra abaixo, mas sei que a miadeira será igualmente pungente. Já eu irei feliz.

23 comentários

  1. Incrível como já se passaram cinco meses desde a ultima atualização…

    Ainda aguardando…


    • Malva respon de: Oi, Olívio. Obrigada pela paciência. ;)


      • ^^

        Desistiu mesmo do blog foi? =(

        Ao menos nos repasse o endereço dos outros (quer sejam mais ativos ou não), ao menos pra nos aliviar da tensão pelo próximo texto. rs.

        Ainda aguardando hein? rs.


        • Malva responde: Vc é sempre gentil, Olívio. Desistir, propriamente, não desisti. É aquela coisa de “um dia desses, eu escrevo” e o “dia desses” não chega nunca. Não tenho outro blog, não. Ao menos, não atualizado. ;) Um abraço procê e obrigada pela persistência.


  2. Este relato fez com que me sentisse retornando aos deliciosos anos que vivi loucamente e intensamente no litoral, mas hoje não sou nem sombra do furor de emoções que fui naqueles anos. Culpa da idade ? Da profissão que nos torna resignados? Da cidade que nos aprisiona e não nos deixa outra opção senão a quase clausura por conta da violência e da chatice de sair num sábado à noite, rodar, rodar e não conseguir, ao menos, estacionar o carro ou se deparar com um cinema lotado ?


    • Malva responde: Ah, Hilda, sabe que prefiro não demonizar a cidade? Fico aqui ruminando que o mal estar generalizado diz respeito mesmo à tal da pós-modernidade, tenha que nome tiver, seja transição, ruptura ou crise… É uma espécie de sensação de fim de feira global. ;) Um beijo procê e obrigada pela visita e pelo comentário.


  3. Vai ser preciso que façamos uma revolução mesmo? Avise aos seus chefes que eles são responsáveis pelo caos que em breve instalar-se-á no seu blog. =\#


    • Malva responde: isso aqui tá bem “precisado” de uma revolução. :))


  4. Onde estás???=S
    Cadê os livros? rsrsrs.

    Já que seu universo ultimamente gira em torno dos seus livros, por que não fala sobre eles? Ao menos dá uma passadinha por aqui oras… =S

    Saudades dos seus textos.

    =D


    • Malva responde: Olívio, já pensei em vários textos relacionados aos livros. O que está faltando mesmo é tempo pra tecer… ;)


  5. …e crucificado numa cama de motel de segunda, eu olhei para o céu, e perguntei: Malva Mauvais, por que nos abandonastes?


    • Malva responde: Ih, esqueci de abrir as algemas, foi?! Péra… as chaves devem estar em algum lugar por aqui… :))
      Seu Do Contra, tou encrencada aqui com o segundo dos três livros que me foram encomendados. Daí, o blog fica mofando – e como mofa coisa no litoral, sô!
      Abraço!


  6. senhorita malv, adorei seus desfaniquitos praianos! ;-) Obrigada pelo link. beijos,


  7. menina, o seu relato transborda leveza e vontade de ficar para sempre perto do mar. Muito bom ver você assim, cheia de energia praiana de sol e de lua. O chapéu voando é a sua cara, Malva. Você tem alma de diva. Me deu até vontade de andar na beirinha d’água… e é o que vou fazer agora. Beijos praianos


    • Malva responde: Adoreeeeeeiiii a alma de diva. Tá, uma diva de bermuda e chinelo havaiana, meio decadente, mas leve, leve, leve… Molhou o pé na água, Dan? É bom, né? Beijoca e obrigada.


      • diva é diva… mesmo com os pés no chão ou num campo de concentração… continua diva… predisposição.

        li seu post, escrevi por aqui e desci… não só molhei os pés como dei um bom mergulho (no arpoador) e fui caminhando até a praia do diabo…


  8. Só tenho uma palavra pra vc, Madame Mauvais: inveja. Se bem que meu lance seria mais floresta do que praia. Não sou muito de sol, mas qualquer coisa que nos tire das prisões de cinza e concreto é válida.


    • Malva responde: Ô, do Contra, eu também não sou fã de sol. Daí o chapelão, o filtro solar FPS 90 e as caminhadas noturnas à beira mar… sou uma caiçara muito da esquisita. :))


  9. Os mais antigos dispositivos de medir o tempo foram feitos com areia. Na praia todos sabemos que ela é abundante.
    Por que a pressa afinal?
    Deixe-a por aí quando voltar…


    • Malva responde: Sim, sim… a pressa, o trânsito, a poluição, tudo fica por aqui na minha volta. ;)


  10. [...] * Publicado no Malva Mauvais [...]



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