
“A Origem”: o mergulho no sonho prosaico
26/08/2010Sonho e poesia são irmãos milenares que ganharam um caçulinha temporão, o cinema. Na virada do século XX, Freud mostrou como certos processos de elaboração dos sonhos criam uma espécie de quebra-cabeça feito de alianças, dissimulações e revela/esconde das imagens, mascarando o seu significado. Esse tour de force das combinações imagéticas é o próprio mecanismo da imaginação em funcionamento. A matéria-prima da criação artística, portanto.
As evidências de parentesco são várias: o jogo de significados faz do sonho uma metáfora, do mesmo modo que faz da poesia e do cinema linguagens metafóricas. O devaneio, aquele “sonhar acordado” em que nos deleitamos com pensamentos errantes vagueando em espaços indefinidos, tem uma linha direta com a ficção e a arte. Durante os sonhos, é como se a mente nos apresentasse um “filme” que nos mantém em estado de suspensão da vigília, como ocorre quando viramos espectadores de cinema ou leitores de poesia ou romance – há uma espécie de privação temporária do tempo e do espaço, acontecem deslizamentos de significados, abre-se espaço para epifanias, enlevos e enigmas.
Inúmeros livros e trabalhos acadêmicos tratam das relações entre sonho, poesia e cinema e muitos deles abordam os pontos que apenas pincelei ligeiramente acima, o suficiente para justificar meu incômodo com o filme A Origem (“Inception”). Não que A Origem seja um filme ruim, se o tomarmos como entretenimento. É uma bem elaborada espécie de Missão Impossível (des)onírica, cujos pontos fortes são ação vertiginosa, muitos efeitos especiais e montagem intrincada. Em relação a essa última característica, o diretor Christopher Nolan repete o artifício que usou em Amnésia (“Memento”), de 2000, em que a montagem tentava atribuir alguma complexidade ao enredo. Desta vez, acrescentou-se à fórmula o questionamento da realidade (tema muito explorado pelo cinema de uns anos pra cá), para dar um toque filosófico à correria e às explosões.
Exatamente por conta da montagem, a narrativa balança um pouco ao cair num “expliquismo”. As falas das personagens tentam tornar didático um roteiro que coloca sonhos dentro de sonhos dentro de sonhos, cujo fio que os liga é o cumprimento da tarefa atribuída ao grupo de falsificadores de pensamentos chefiada por Don Cobb, personagem de Leonardo Di Caprio. Aliás, muito parecido com aquele que interpretou no recentíssimo Ilha do Medo (“Shutter Island”) – se bem que personagens de Leonardo DiCaprio são sempre parecidos por vício de origem.
Voltemos ao incômodo: em A Origem, os sonhos e os sonhos-dentro-dos-sonhos são insipidamente semelhantes à realidade da narrativa. Sonhos de business, de lógica cartesiana, de agenda, de missão a cumprir, em que o prosaísmo impera (claro, o tanto quanto pode ser prosaica uma avalanche de neve). Prosaico no sentido de déjà-vu e também no de ausência de dimensão poética. No mundo onírico do filme, praticamente inexistem os aspectos da representação dos sonhos como habitualmente vemos nas artes, herdados do surrealismo.
É pouco para os sonhos, que amargaram oito séculos de ostracismo. A partir do século XVI, os modernos varreram o onírico para o território do sobrenatural e da ignorância popular, desqualificando sua linguagem como sem sentido, numa época de afirmação da mentalidade científica e racional em contraposição ao que foi entendido como misticismo medieval. Descartes chegou mesmo a considerar o sonho um “erro”. Os freudianos recuperaram o valor da imaginação simbólica como fonte de conhecimento, embora outros trabalhos já apontassem para isso, inclusive nas artes e na literatura. Os escritores românticos, por exemplo, com suas naturezas tempestuosas e narrativas góticas, já indicavam para algo que, posteriormente, viria a ser chamado de inconsciente.
Faltou arrebatamento, faltou surpresa, faltou linguagem simbólica, faltou arte. É o que me deixa perplexa diante da fartura de elogios que filmes como A Origem e Avatar têm arrancado da crítica especializada. São divertidos? Sim. São bem feitinhos? Sim. Mas é matéria de menos para tanto louvor.
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Nota: É claro que a escolha do “sonho prosaico” não se deu por acaso. Sobre as implicações ideológicas de A Origem, há um excelente texto do Rodrigo Cássio, no blog Vistos e Escritos, intitulado “A impotência do homem e do mundo”. Vale a pena ler aqui.










muito bom o teu blog!! dá vontade de dialogar direto com o que escreves.
Malva responde: Oba! Dialoguemos, então, Douglas… :)
O melhor texto que encontrei sobre “A Origem”.
Melhor, principalmente por se despir da atual retórica da crítica cinematográfica e seu “adjetivismo” em excesso e por fazer conexões com outras áreas do conhecimento humano. O que torna a preocupação com o produto mais fundamentada em sua função primeva- que é a artistica- contrapondo-se com as críticas preocupadas com mercado (geralmente encontradas em jornais, revistas e forças midiáticas de larga escala)
Ao passo que “destrinchar” a obra desta maneira elucida com mais ferramentas a intenção da empresa/marca e desmascara todos os elementos pobres travestidos de inteligibilidades.
Evoé à uma nova empreitada da crítica especializada!!!
Malva responde: Eidi, que coisa boa!!! Depois de umas pernadas, nada melhor do que ler alguém que entendeu o que estou fazendo aqui no meu espacinho virtual.
Quando resolvo escrever sobre um filme, não gosto de bater na mesma tecla em que bate a crítica especializada na mídia, porque não teria a menor graça. Quem quer ler a opinião da crítica especializada na mídia, que leia na Folha, no Estado, na Veja, sei lá mais onde.
Aqui, gosto de escolher um ângulo qualquer de meu interesse e relacionar com pressupostos literários (literatura é a minha praia). Faço isso porque acredito piamente na relação estreitíssima entre cinema e literatura. E não tenho a menor pretensão de fazer um aaaaamplo painel de coisa alguma. É um recorte particularíssimo meu.
Agradeço a visita e o comentário. Espero que vc volte de vez em quando. Abraço!
Penso que a construção de sua tese é falha em diversos pontos; você apresenta premissas por todo o texto, mas em nenhum momento vejo análise de outra interpretação possível que não a defendida por você. A multiplicidade de um texto, seja ele cinematográfico, pictórico, discursivo ou literário, é um dos fatores chave para uma classificação (arbitrária e pessoal, obviamente) qualitativa.
Por que um sonho deve essencialmente seguir uma análise freudiana e não qualquer outra? A própria “superficialidade” da maioria das personagens pode ser interpretada como uma alusão a arquétipos universais; até mesmo o papel deles na história é identificado por um termo (Pointman, Forger, Architect, etc.).
Como disse, essa é uma possibilidade. Durante minha leitura, agora falando do seu texto, senti falta de um embasamento maior que “não é surreal, não é válido”. Qual é o problema na apresentação do subconsciente sob uma linha cartesiana?
A poesia do filme não é em nenhum momento anulada pelos seus argumentos. Talvez para você sim, mas não para mim.
Malva responde: Essa sua idéia de analisar o filme “A Origem” relacionando os personagens a arquétipos é legal, Pedro. Por que você não escreve sobre isso?
Mas vamos lá: em nenhum lugar eu escrevi que se não é surrealista não vale.
Sonhos e inconsciente não têm nada de linear e cartesiano, nem quando se sonha com lista de compras de supermercado. Aliás, Descartes (cartesiano) chegou a dizer que sonhos eram um “erro”. Se é pra mostrar sonhos de forma cartesiana, pra que representar sonhos? Esse é o meu ponto.
Meu texto não é “falho”, é apenas diferente da sua opinião.
Não sou só eu quem parte de premissas num texto. Todo mundo SEMPRE parte de premissas para dizer qualquer coisa. Inclusive você, porque pensamento não nasce de pé-de-couve, não vem do nada (filosofia basiquinha).
É óbvio que você não vê outra interpretação possível no meu texto porque eu só coloquei a minha interpretação – e apenas uma parte dela.
Um sonho não segue uma análise freudiana. Sonho é sonho. O que coloquei foi a relevância do texto de Freud para as artes, em determinado momento, e na crítica de um filme com essa temática.
Por fim, se vc viu poesia no filme, bom pra você.
Claro que todos nós partimos de premissas ao construir uma tese, ou, como você mesma disse, uma opinião. Cabe a nós trabalhar essas premissas de forma menos cabal que o mero mencionar das mesmas, mas passemos a assuntos mais urgentes.
Repito: não vejo problema em apresentar o sonho de forma cartesiana. Foi interessante para as pretensões do filme, mas isso é pesado por você? Todo filme possui, antes de mais nada, uma intenção e um público alvo. A ausência da suposta densidade “cult” para você e outros, não é fato pra mim e outros, essa é a verdade. Não desmereçamos quem gostou do filme pelo que ele é, e não pelo que poderia ser. Ele é denso dentro do seu próprio conteúdo, mas não vamos comparar leite e óleo, surrealismo e classicismo, Gaiman e Byron , Nolan e Almodovar. Todos são essencialmente diferentes, e grandes em seus próprios paradigmas.
Claro, esperava que você compreendesse o que quis dizer com a multiplicidade que um texto oferece. A interpretação parte desse fato que para mim é óbvio. Citando Foucault “A vida da interpretação é o crer que não há mais que interpretações”. Sua leitura é válida, mas não é a única, e senti falta da mera menção que estava lendo uma interpretação, e não a voz suprema, no seu texto.
Além do mais, explosões hollywoodianas necessariamente diminuem um filme tanto assim? Precisamos repensar, pois não vejo onde explosões anulam poesia. Em uma comparação talvez pouco prática, alguns textos como “This is Just to Say” do poeta norte americano William Carlos Williams, que para muitos não passariam de um bilhete informal, são encarados como alta poesia por um grande número de pessoas. Quer dizer então que ser um bilhete com a aldácia de ser apresentado como poesia o descaracteriza como tal? Por que tanto medo das explosões, sendo que elas não vão te atingir além da tela? Vamos nos desfazer dos preconceitos, por favor.
Malva responde: Uma coisa que está me deixando sinceramente chocada é a reação de alguns fãs do fime, que raramente fazem algum questionamento específico a qualquer coisa do texto, preferindo sempre a velha estratégia da desqualificação de quem escreve. Fico aqui imaginando que se trata da falta do hábito do contraditório. Paciência…
Esse lance de ser “cabal” ou dona da “voz suprema” é uma acusação até engraçada, por dois motivos: primeiro porque não vejo necessidade de suavizar uma crítica, de modular a escrita. Tenho que tomar todo o cuidado do mundo quando escrevo um texto acadêmico. Aqui, não preciso, porque escrevo por prazer e diletantismo e para alguns poucos interlocutores. Em segundo lugar, é engraçada porque se trata de uma interpretação sua. Veja só! Você fez uma interpretação sobre o “tom” que eu usei pra escrever e não teve o cuidado me mencionar que era uma interpretação… e sabe por quê? Porque tudo o que pensamos parte de uma interpretação pessoal. Acho que não é preciso colocar um aviso de “Perigo! Cuidado com a interpretação” no cabeçalho do blog.
Afinal, qual é o problema de se esperar mais de um filme (ou livro, ou poema ou prato do dia)? Assim como vc cobra “multiplicidade” do meu texto, eu cobro do filme. Dá no mesmo. O diretor fez sua opção pelo sonho “cartesiano” e eu fiz a minha, pela crítica a essa escolha.
Não se trata de querer um filme “cult”, mas de não gostar de um filme específico. Não gostei desse. De fato, você tem toda a razão quando escreve que aquilo que para alguns não passa de um bilhete informal pode ser encarado como alta poesia por outros. Bingo!!! É exatamente isso. O que vi em “A Origem” tá mais para bilhete informal, enquanto que para os fãs é algo épico.
Ótimo. Pra mim, tá de bom tamanho: cada um que aproveite da obra aquilo que for possível. Não vejo demérito algum em gostar de “Inception” (e é bem possível que os fãs mais empedernidos tenham tido a mesma opinião que eu sobre um outro filme qualquer, o que seria irônico) e, principalmente, não há demérito na crítica que fiz ao filme.
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Ah, sim… Depois de me dar ao trabalho de escrever toda a ladainha acima, fui lá no seu perfil do Twitter e vi que vc acredita que está em alguma espécie de competição de grossura com sei-lá-quem. O que é a interpretação, némesmo? Eu estava achando que era uma simples conversa com algum grau de interesse intelectual… Erro meu. ;)
Como você bem observou, a graça desse filme – bem como de outros como “Amnésia”, “21 gramas”, “Irreversível”, “Pulp Fiction” – está na forma em como a história é contada.
A história em si não possui muita profunidade – um assalto que pode ser arruinado pelos demônios internos do protagonista – mas como ela é bem “contada” então realmente diverte legal.
De fato, os sonhos no filme não têm muita cara de sonhos. Pablo Villaça, em sua ótima crítica do filme, arrisca uma justificativa:
“A resposta, creio, deve-se mais à disciplina do cineasta como contador de histórias do que a uma possível falta de imaginação: já bastante convoluta ao envolver múltiplos níveis de realidades que se engolem como bonecas russas, a narrativa poderia facilmente atravessar a fronteira entre o complexo e o incompreensível, sendo prejudicada justamente por suas ambições. Além disso, ao trazer a figura de uma arquiteta (Page), Nolan justifica narrativamente a “solidez” do sonho, que surge, então, cuidadosamente planejado e organizado pelos invasores justamente para que se apresente com um mínimo de coerência interna que permita sua ação como espiões.”
Sim, faltou um pouco de poesia, mais imaginação nos sonhos (e no filme), porém o diretor não ambicionava produzir algo que se aprofundasse sobre isso, um “tratado” ou algo parecido.
O que ele quis foi tão somente produzir um bom filme de ação, um “blockbuster” com alguns neurônios.
E conseguiu.
* * *
Crítica do Pablo Villaça:
http://www.cinemaemcena.com.br/Ficha_filme.aspx?id_critica=7588&id_filme=8791&aba=critica
Malva responde: Que bom vê-lo por aqui, Roger! Acho que o Pablo Villaça tem toda razão nisso aqui: “a narrativa poderia facilmente atravessar a fronteira entre o complexo e o incompreensível”. Talvez fosse um grande risco, mas a gente nunca irá saber o quanto, né? Também acho que o diretor não ambicionava produzir alguma coisa mais profunda nessa coisa dos sonhos – é um blockbuster, afinal. O incômodo foi pessoal, motivado por minhas expectativas (há outros filmes do gênero que assisto sem me esperar nada e sem me importar com nada). Por outro lado, fico aqui pensando que se o público entendeu e curtiu, é sinal de que pode vir a apreciar coisas mais complexas também, assim como as mais simples (não simplórias) e sutis. É um filme de ação; nisso concordamos plenamente. Um abraço procê e muito obrigada pela visita e pelo comentário.
Gostei da análise.
Nem sei porque algum imbecil de ofenderia com ela.
De qualquer modo, não achei nada de muito profundo nem “filosófico” no filme, coisa que bem “cabe” em Hollywood.
Me parece mais que o diretor suspendeu momentaneamente suas doses de Rivotril e teve uma boa idéia, mas aí os patrocinadores falaram pros seus médicos voltarem com a droga pois o “menino estava se tornando impopular”.
Malva responde: o seu Coisa, sempre chegando “na voadora”. Trocando em miúdos, é issaí mesmo. O diretor faz suas escolhas, produtor idem, público também e quem analisa e critica têm o mesmíssimo direito. Duro é quando as pessoas passam a acreditar que é preciso aplaudir obrigatoriamente – e de um jeito “certo”.
Oi, Malva,
achei bastante interessante o teu texto, e igualmente interessante a discussão nos teus posts. Acho que a grande indignação sobre os elogios positivos a Inception e Avatar poderia ser vista pelo ângulo do que significa qualidade para cada pessoa. O que o Bruno Cava fala sobre o Bordwell me parece pertinente: o cara adorou o fato das narrativas correrem em paralelo umas dentro das outras, além do fato que os tempos se alternam com durações diferentes, algo que cativa em particular um teórico da evolução das origens da forma fílmica. Outros elogiaram o 3D, ou ainda a capacidade de reciclagem etc.
Acredito que todo filme possa ser bom para alguém ou para algum film, acredito que toda obra possa cumprir bem algum critério de qualidade, razão pela qual a discussão do tipo “esse filme é bom ou não?” me parece pouco pertinente, porque ela interroga apenas o filme em si e esquece o destinatário. O que acha?
Abraço e bom trabalho pelo blog, que já está devidamente adicionado à minha lista de feeds!
Oi, Bruno! Sim, sim, sim! Também acho que uma discussão que fique apenas no “esse filme é bom/mau” não serve de nada. Por que raios me daria o trabalho de escrever um tantão de coisas relacionando cinema e literatura se a questão se resumisse a “ameiiiiiii…. entrei na vibe e o Leonardo é um gato”? Tenho um viés de análise, que é a literatura – e não dá pra negar a relação entre cinema e obras literárias, não apenas porque os roteiros de filmes adaptam livros, mas também porque o cinema passou a ter grande influência sobre a narrativa escrita. Além disso, certas tendências estéticas ou o “zeitgeist” são reconhecíveis em todas as artes -.
O ponto de vista do Bordwell me parece um tanto formalista – mas é claro que dá pra analisar um filme sobre essa perspectiva, que deve ter sido, aliás, a que agradou público e grande parte da crítica. Não me diz muito, porém. Eu preferiria que esse recurso de as narrativas correrem em paralelo dentro das outras e em tempos diferentes (o “tour de force” do diretor) fosse somado a outras questões, como a estética do onírico, personagens mais bem desenvolvidos, coisas assim.
Mas o grande barato de trocar informações com gente como você é descobrir coisas novas. Para mim, por exemplo, o desconforto com a falta de poesia (num sentido bem amplo, de arte) nem me deixou pensar muito nesses lances formais. Uma hora dessas, vou rever o filme e será forçosamente com outros olhos por conta de suas observações (e as do Cava e as do Bordwell), embora as minhas ressalvas a ele talvez se mantenham, porque são de outra ordem. De qualquer modo, é muito legal que essas questões sejam apontadas pra ampliar uma discussão.
Por fim, penso que o destinatário não tem como ser esquecido, até porque quem critica é ele próprio um destinatário; e é do ponto de vista deste destinatário específico que a crítica se fez.
Adorei a visita e comentário, a propósito. Vou colocar seu blog lá nos “Bons de cinema”. ;)
Pôxa, bateu aqui nos comentários e mandei pro espaço uma oração tipo corrente pedindo por dinheiro, de alguém que usa o nome de “deise”, e já me arrependi. Vai que ela fique sem a grana por minha culpa…
Você lançou uma hipótese ou uma conclusão ao afirmar que faltou simbologia, arte e surpresa? Onde está a antítese disso tudo no filme? Não posso, por exemplo, lançar um comentário sobre seu blog, dizendo que ele não supreende ou não tem essência crítica sem lançar as provas para tal e apenas me baseando em comparações superficiais. Você perpassou pela história da produção onírica e poética, apenas dizendo que em “A Origem” nada do que se destacou durante os tempos no mundo artístico e científico (boa soma para premissas falsas) tenha aparecido no filme. Indique os fatores preponderantes para confirmar sua tese, caso contrário esse monte de coisa “bem escrita” não passará de uma pseudo-estudei-em-harvard-crítica! Obrigado.
Malva responde: Antes de mais nada, não sei por que cargas d’água toda vez que alguém escreve com um pouco mais de cuidado (o “bem escrito” de que vc fala aí e que eu agradeço pela parte que me toca), já logo vem um ressentido taxando de “pseudo-qualquer-coisa”. Só pra esclarecer a inadequação do uso do “pseudo”: o que eu sei, eu sei; e só posso escrever a partir disso que sei. Então, não tem nada de “pseudo” aqui nem na opinião de qualquer um. Alguém poderá dizer que é muito, pouco, médio ou quase nada se comparado com outro, mas o que eu sei está muito bem armazenado na memória e a partir disso escrevo, gostem ou não, concordem ou não.
Outro ponto que deve ser esclarecido previamente: não tenho que provar coisa alguma para dar opinião no meu blog ou em qualquer outra mídia. Não tenho que pedir licença a ninguém pra opinar. Não tenho que pedir desculpas por ter opinião. Chato, né? Nem tanto porque, da mesma maneira, você também pode escrever o que bem entender sobre qualquer coisa, sei lá onde. É direito seu. Menos aqui, é claro, jurisdição em que eu tenho poder de veto dependendo da forma como você se manifestar – e com você até fui boazinha (tá lá no link “critérios para aprovação de comentários”, minha Carta Magna blogueira). Entendido?
Voltando ao tema em questão (“Inception”), nem mesmo posso rebater ou concordar com algum argumento seu, porque vc se limitou a me chamar de “pseudo-sei-lá-o-quê” e dizer vagamente que uso de “premissas falsas”, mas não escreveu nada de interessante ou aproveitável sobre o filme, não mencionou qualidade nem defeito, não questionou nenhum ponto específico do texto; enfim, não disse necas de pitibiribas de sua lavra que rendesse algum debate.
Isto posto, não se trata aqui de fazer tese nenhuma. Não existe “essência crítica”. Existem leituras e recortes de quem está analisando. Minha crítica, assim como de qualquer um, seja jornalista da Bravo, zé-mané ou Julio Cesar, é pura interpretação. Quem diz o contrário, é porque acredita que exista alguma “verdade” dentro do filme, que alguns vêem, outros não. Não existe. Existem níveis diversos de interpretação, existem abordagens distintas. Já dizia o Bakhtin que o texto é o leitor quem faz ao ler. Vale o mesmo pra um filme, que também é um discurso.
Veja, eu escolhi falar do que senti falta no filme; ou seja, de uma linguagem visual que remetesse aos sonhos. Já o Rodrigo Cássio, do “Vistos e Escritos”, preferiu cair de sola na questão da ideologia capitalista que “A Origem” vende. Isso quer dizer que eu esteja errada e ele certo? Ou o contrário? Que nada! Nossos textos até dialogam, como ele mesmo escreveu. O Bruno Cava, do Quadrado dos Loucos, no comentário aí abaixo, colou um link muito legal de um renomado crítico norte-americano afirmando que em “Inception” o sonho não tem a menor importância, porque seria, na verdade, um “puzzle-film”. Ele está errado? Claro que não! Os pressupostos todos do gênero “puzzle-film” estão lá. Eu mesma escrevi que o filme me parecia “parente” de “Missão Impossível” ou algo do gênero. O Bruno lembrou do “Onze Homens e um Segredo”, que é ainda mais semelhante.
O que eu não curti no filme – e não há o que “provar” em relação a isso – foi o fato de os sonhos terem entrado como recurso para que o diretor fizesse um tremendo esforço de montagem, muitíssimo intrincado, e obter como resultado mais um filme de ação como tantos outros. Todo o resto (sonhos, Mal, filhinhos, briga entre corporações, Michael Caine) virou adereço, quase fumaça, diante da missão que o grupo tinha a cumprir, com as complicações inerentes a essa missão. Poderia ser invasão de pensamento em vigília ou viagem no tempo, que daria na mesma.
Dei uma pincelada sobre Freud e literatura para contextualizar a minha argumentação a respeito da representação do onírico nas artes. Quem tiver interesse, poderá ler trabalhos sobre o assunto e verá que aquilo que escrevi tem fundamento. Se gostam ou não, é outro papo.
Salve, Malva,
Pois é, partilhamos da interpretação. Tenho participado de alguns debates pela crítica afora e posso relatar que, principalmente nos EUA, a questão do sonho não seria essencial ao filme. Mero acessório para propiciar o argumento central, que é a construção de um gênero ‘heist’, isto é, um filme de plano-perfeito (como “Onze Homens e um Segredo”, do Soderbergh). Assim, o sonho pretexta um tour de force do diretor, que está em articular múltiplas narrativas e testar essa estrutura como experimentação e entretenimento.
Da mesma forma como a história de fundo, os personagens, o drama de “Memento”, filme de Nolan de 2000, tudo isso tampouco era crucial, e atendia a seu ensejo de experimentar um conceito narrativo.
Esse foi o argumento de um dos mais respeitados críticos do mundo anglófono, o David Bordwell, que pode ser lido aqui:
http://www.davidbordwell.net/blog/?p=9692
Depois de longo debate, ele revisitou a opinião num novo post:
http://www.davidbordwell.net/blog/?p=9770
Recomendo muito essa leitura porque se trata de um crítico bastante cortês com o leitor, de tão acessível e cristalino, bem diferente das (gostosas) piruetas da crítica francesa, e antenado com o que rola no cinema mundial.
Apesar de elucidar várias questões, em especial quanto às premissas e ao terreno de onde parte certa crítica hoje, pra mim não convenceu. Mas me forçou a deslindar pressupostos. Se você acha que o debate é frutífero, e ler esses links, posso contra-argumentar (ao Bordwell) com mais vagar.
Beijos!
Malva responde: Bruno, que a questão do sonho não é essencial ao filme, acho que é descarado… :) Sim, é claramente um filme de “plano perfeito”, concordo. Sabe aquele papo de engenho e arte da poética clássica? Poisintão, o diretor apostou tudo no engenho (e é claro que a aproximação que faço é anacrônica, mas serve como ironia). Entendi o ponto de vista da experimentação da narrativa e acho que ainda pode ser melhor desenvolvida (a experimentação), de modo que a coisa toda se torne mais complexa – e não simplesmente intrincada. Daí porque não concordo que a explanação contínua dos planos e situações no filme (o blablabla) seja propriamente uma inovação. Me parece antes um arranjo necessário pra que a narrativa se torne mais compreensível. Achei que ficou chato.
Os textos do Bordwell são ótimos! Grata pelos links. Gostei do modo como vai às minúcias e também achei interessante dissecação que ele faz das convenções do gênero (pelo menos pra mim, que parto dos pressupostos literários e não especificamente cinematográficos). O debate é frutífero, sim, afinal de contas, vc pode andar no terreno da técnica, da montagem, do conceito de narrativa, mas as pontas soltas continuam lá (o Bordwell menciona várias delas), de modo que se há algo aí surgindo em termos de linguagem, de gênero, certamente aparecerão exemplos mais bem trabalhados.
E se o puzzle film é a base da coisa toda, então fica devendo nessas escorregadas… Foi divertido como é divertido “Onze Homens e um Segredo”, mas não me impressionou, pelo menos não a ponto de achar algo de muito inovador no filme. A questão é: se esqueço da questão dos sonhos, o que sobra?
P.S.: Coloquei um link pro seu blog nos favoritos do Sombras Elétricas, beleza?
Valeu!
Se tá beleza? Tá muito beleza, André! Grata. Aliás, eu já deveria ter linkado o Sombras Elétricas. Escapou, mas agora vai. ;)
Muito boa a análise! Concordo com tudo! Também fiquei com essa forte impressão de que faltou imaginação na representação do sonho, por isso achei melhor entender o filme como um thriller mesmo. A ideia de prosaísmo onírico é bem interessante mesmo, parece a besteira que Tim Burton fez com Alice…
Malva responde: Eu também achei melhor entender o filme como um thriller de ação. Fazer o quê? :) Sobre “Alice”, ih…. a decepção foi ainda maior, porque de Tim Burton eu esperava coisa muito melhor. Analisei aqui. Vc escreveu sobre “Alice”? Vou lá xeretar…
Conseguiu resumir em poucas (e boas) linhas tudo que eu senti quando saí do cinema.
Acredito que o aspecto comercial tenha sido mais valorizado nesse filme… O que é uma pena, já que havia muito potencial. Mas fazer o que, o povo quer vender, né?
Parabéns pelo post! Fazia tempo que não lia um texto tão bem escrito. Hoje em dia parece que as pessoas se preocupam mais em tentar aparecer com opiniões agressivas do que escrever algo digno de reflexão.
Malva responde: Fatinha, o cinemão hollywoodiano é uma indústria de peso. Claro que nem me passa pela cabeça que abram mão do lucro, mas acho que o espectador não rejeitaria coisinha melhor, nénão? Muito obrigada pelo elogio. Fiquei toda-toda. ;)
[...] This post was mentioned on Twitter by Ofélia M. Marcondes, Ofélia M. Marcondes, Antonio Kuntz, Ofélia M. Marcondes, Ofélia M. Marcondes and others. Ofélia M. Marcondes said: RT @MalvaMauvais: RT @EderAlex Que inveja de quem escreve bem assim. Recomendo: Inception: o mergulho no sonho prosaico: http://wp.me/pNndD-bu [...]
[...] à realidade das personagens. O mundo onírico merecia mais depois de oito séculos de ostracismo.… Leia mais Veja Tambem [...]
[...] à realidade das personagens. O mundo onírico merecia mais depois de oito séculos de ostracismo.… Leia mais Veja Tambem [...]
[...] Em “A Origem”, os sonhos são desconfortavelmente semelhantes à realidade das personagens. O mundo onírico merecia mais depois de oito séculos de ostracismo. LEIA MAIS… [...]
Eu já acho que estes filmes estão sendo tão elogiados porque são filosóficos demais pro atual padrão de pastiche e pasteurização de hollywood. Não são de fato primores de profundidade de roteiro e utilização da linguagem em sua plenitude poética. Mas, de certa forma, rompem com a onda de remakes e adaptações de HQs que figuram entre os lançamentos. Fazer o espectador penetrar em uma narrativa não-linear, hoje em dia, já é uma vitória, de tanto que ele está viciado nos clichês hollywoodianos.’
Ótimo texto!
Abraços,
Paulo, não sou tão pessimista assim em relação à capacidade de o espectador médio entender um filme menos convencional. Afinal, uma obra qualquer tem várias camadas, vários níveis possíveis de interpretação. Se alguém consegue entender a narrativa não linear de “Inception”, pode muito mais que isso. Acho que o povo da indústria cinematográfica é que, por questão de grana e risco do investimento, prefere se manter dentro de uma fórmula; e temo que crítica faça sua parte em elogios pra engrenagem andar. Um espectador médio elogiar sem se dar ao trabalho de escarafunchar referências filosóficas, literárias e cinematográficas, aceito na boa. A crítica especializada, não.
Mas vc tem razão: antes isso que remakes pobres e filme de super-herói. Grata pela visita e pelo ótimo comentário. Abs.
hollywood a reificar o sonho.
excelente análise.
Malva responde: Brilhante, Denison. Reificação. Perfeito. Invejei agora: queria ter encontrado a palavra antes. ;)
tu já havias encontrado, só a despertou em mim. ;) beijo
Malva responde: Eita! Poeta até nos comentários. Beijo!
Parabéns!!!Adorei o texto. De fato, que será de nós sem a linguagem simbólica dos sonhos, nos diversos segmentos? Será que teremos um retorno a idade média?
Felizmente que as reflexões de pessoas, como você, nos faz pensar o contrário. Um abraço!!!
Malva responde: Pois, olha, Marbênia, tinha muita poesia boa na Idade Média. Foi exatamente a modernidade que varreu os sonhos pra debaixo do tapete que vendeu a idéia de que a Idade Média era a idade das trevas. O legal é que a poesia não desiste. Ela vai se infiltrando em todo canto. Muitíssimo grata pela visita e pelo comentário. ;)
Malva, parabéns pelo texto, e obrigado pela interação com o link para o Vistos e Escritos! Um abraço.
[...] * Publicado no Malva Mauvais [...]
O sonho deveria ter sempre a dimensão do poético, Hollywood, há muito perdeu esta dimensão.
Malva responde: É isso aí, Edson. Tem um cinemão que não dá mais conta da poesia. Pena…