
No país das maravilhas domadas
16/05/2010
“E onde está a Alice original? Não está. ‘Eu não queria ser a Alice errada’, desculpa-se a personagem principal, ré confessa”.
Pincei essa pérola acima da crítica do Bruno Cava ao filme Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton. Aí está uma boa síntese de um trabalho que tem muito mais de Disney do que de Lewis Carroll.
O Bruno discorreu acertadamente sobre o descompasso entre efeitos visuais e a proposta do filme, as obviedades e clichês do roteiro, o gosto de plástico do resultado e a sensaboria das interpretações. Concordo com tudinho, mas serei um pouco menos má, admitindo que dá pra tomar o filme como passatempo, se a gente não perder de vista que se trata de uma aventura típica de blockbuster com mocinhos e malfeitores. Ou seja, tudo que a obra de Lewis Carroll não é. E quando se trata de Tim Burton pegando como matéria-prima um clássico da literatura fantástica e do nonsense, espera-se mais do que isso.
Publicado em 1865, Alice no País das Maravilhas foi mergulhado e enxaguado nas águas do Romantismo, movimento que surgiu lá pela metade do século XVIII tanto como reação ao classicismo, quanto à ética do trabalho, ao racionalismo e aos valores burgueses.
Uma das vertentes do Romantismo lançou mão do terror, do sobrenatural e do monstruoso para se contrapor a uma sociedade baseada na normalidade e na razão. Parte desta produção desembocou no romance gótico, muito em voga na época de Lewis Carroll. Sente só o espírito da coisa na listinha de obras inglesas que segue: O Castelo de Otranto (1764), de Horace Walpole, Frankenstein (1820), de Mary Shelley, O Morro dos Ventos Uivantes (1847), de Emily Brontë, Carmilla (1872), de Sheridan le Fanu, O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde (1886), de Robert Louis Stevenson, O Retrato de Dorian Gray (1891), de Oscar Wilde, A Ilha do Dr. Moreau (1896), de H. G. Wells, Drácula (1897), de Bram Stoker. A lista é muito maior (apontei apenas alguns dos mais conhecidos) e inclui ainda os contos e novelas do norte-americano Edgar Allan Poe, publicados postumamente na Europa de 1852 a 1865, graças a Baudelaire.
Outro modo de bater de frente no racionalismo foi o nonsense, uma vertente muito explorada pelo Romantismo até mesmo no Brasil. Bernardo Guimarães – sim, aquele mesmo da cândida Escrava Isaura -, foi mestre na poesia pantagruélica, grotesca e obscena. Esse gênero, chamado de bestialógico ou poesia do anfiguri, apostava em jogo de palavras, livre associação de idéias e no absurdo. Cito aqui a pesquisadora brasileira Myriam Ávila, explicando que o nonsense “reside em algo que deixa o leitor suspenso entre o riso e a perplexidade, entre a estranheza e a identificação, como se aquilo ao mesmo tempo lhe dissesse respeito e não dissesse respeito a coisa alguma”.
Um doce pra quem adivinhar quem bebeu dessas fontes! Ele mesmo, Lewis Carroll. Infelizmente, diante de tanto bom mocismo, atos de heroísmo, luta do bem contra o mal, vilão de preto e rainha bondosa de branco, o pouco que restou no filme do nonsense do livro Alice no País das Maravilhas foi o poema “Jabberwocky”, recitado pelo Chapeleiro de Johnny Depp (que, aliás, estava a cara do Gato de Botas de Shreck se fazendo de meigo):
“Era briluz. As lesmolisas touvas
Roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos. (…)”
(na célebre tradução de Augusto de Campos).
Lancei mão das referências literárias da época para deixar mais evidente a distorção do clássico de Lewis Carroll que surge nas telas. Não se trata, evidentemente, de exigir fidelidade total na adaptação de uma obra literária para o cinema, mas não dá aplaudir uma traição, como no caso desta versão de Tim Burton. Ainda mais coroada com a grande heresia final de transformar Alice numa aprendiz de capitalista. Os autores românticos todos se reviraram na tumba.
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Nota: No site da Ciência Hoje, há uma crítica muito boa da historiadora Keila Grinberg, que também faz objeções ao filme do ponto de vista histórico: “a Alice de Burton é a própria imagem do progresso no século 19″, diz ela.











Olá, Malva!
Passei aqui para lhe agradecer pela visita feita ao meu blog, o “Gato Branco em Fuligem de Carvão” (ou, mais resumidamente, “Artigos Efêmeros”). E, também, estou aqui para comentar esse seu post sobre o “Alice no País das Maravilhas”. :)
Vamos por partes:
Pois é, fico muitíssimo feliz em saber que você adorou o “Artigos Efêmeros”! Fique à vontade para visitá-lo de vez em quando – você será sempre muito bem-vinda lá. Ah, Erico Verissimo é, ainda, o meu escritor favorito; seus livros são absolutamente fora de série, maravilhosos. :)
Quanto ao seu post, achei muito bacana a análise detida que você fez em torno da literatura do Carroll… muito rica! Além do mais, você escreve muito bem. Enfim, adorei. E não posso deixar de colocar clara a minha posição sobre o filme: achei a mesma coisa que você achou. Quando “Alice” estreou nos cinemas daqui, eu já estava saturado de tanta propaganda, já estava achando o filme super-ultra comercial, e isso me causava náuseas (hehe…). Aliás, só vi o filme porque saiu de graça. Fiquei tão pasmo com aquela “dança maluca” do final que quase viro os olhos.
Para que o comentário não fique enorme, vou parar por aqui. Até mais! :)
Malva responde: pode apostar que visitarei mais vezes o seu “Gato Branco em Fuligem de Carvão”. Que bom que vc gostou da crítica! Aliás, vc me lembrou que deixei de falar daquela dancinha ridícula do final… E não se preocupe com o tamanho dos comentários. É tão bom quando alguém tem o que dizer e sabe fazê-lo… Abraço e obrigada.
Ok! Eu o atualizo a cada semana, geralmente sexta, sábado ou domingo. ^^
Ah, eu gosto de conversar bastante, então os seus posts sempre terão grandes comentários meus. :D
Abraços!
Esse filme é censacional, sem dúvida o melhor filme que já assisti em quesito senário, são perfeitos. Recomendo a todos, e inclusive se tiver em sua cidade o 3D é melhor ainda. abrassos
Malva responde: Então, tá…
Cara acho que o mundo tá chato p caralho tudo tem o purismo na frente não que num pode isso não que num pode aquilo puta merda o burton fez um filme bonito divertido e vai marcar a cabeça da minha filha pro resto da vida dela vc queria o quê?
Malva responde: Uai… O que eu queria? Um filme melhor.
colega, adorei esse seu resumo sobre romantismo, colocou aqueles q eu cansei de ler nas apostilas do etapa no chinelo.serio. a lista das obras e autores tambem esta digna. super me jogarei. beijo.
Malva responde: não é bem um resumo, Rayssa. É só uma parte do romantismo, viu? Tem outras vertentes, outros tipos de obra, características diferentes em cada país… Vc já leu “Carmilla”, do Sheridan Le Fanu? Se vc gosta de história de vampiro, não deixe de ler. É muito legal. Beijo. :)
Malva, eu li o Alice original e me senti ludibriado com esse Alice do Tim Burton… Tinha até esquecido dele, sabe aquelas coisas ruins que a memória prefere achar que não existiram?
Muito bom seu post.
Chico, que bom te ver por aqui! Poisé… Mas o público gosta, né? Beijão e obrigada.
Tim Burton “embabacou”. Que pena… vai ver tá querendo mesmo é faturar…
“Gato de Botas de Shreck”?! Ahahahahaha!
Malva responde: Poisé, seu Coisa. É difícil de entender, porque “Alice” cairia como uma luva naquele universo esquisito do Tim Burton. Uma pena… Falei do gato de Botas de Shrek porque aumentaram digitalmente os olhos do Johnny Depp. Ficou arregaladão e com ar de “meigo”. O Chapeleiro era louco. Intempestivo, portanto. Algumas pessoas viram até uma insinuação sutilíssima de interesse romântico do Chapeleiro pela Alice no final (foi tão sutil que eu não percebi. Grande novidade… hahahahaha). Deve ser pra catar público adolescente.
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O final é dos mais tétricos, excelente ponto, Malva. Todo esse barulho e imagem 3D pra ela superar os medinhos, fazer aquela dança ridícula e se tornar uma burguesa empreendedora e autoconfiante, realmente uma lástima. Ainda mais porque os imperialistas ingleses foram pra China pra parasitar, assim como boa parte do mundo. Quem acha os EUA sacanas hoje em dia, ficaria estarrecido com a prepotência e ingerência do império britânico, até a primeira guerra.
Falando em Otranto e romantismo, não deixe de ler a parte 3 da história do cético, no Centro Espírita, lá no Quadrado ;-)
Um beijo!
Malva responde: Opa! A terceira parte já tá lá? Vou ler, sim. :))