Pode um ano ter sido tão bom para mim e, ao mesmo tempo, tão ruim? Pode.
Explico: tou construindo uma bela casa na praia, na cidade, aliás, em que estou morando nos últimos 10, 11 meses, com raríssimas idas ao inferno paulistano. Com o pé na areia, tirei um ano sabático, em que a única preocupação foi escrever três livrinhos de filosofia para ensino médio no primeiro trimestre. E escolher azulejos e pisos e torneiras e a parte bela da obra.
Por outro lado, uma atenção dispersa como a minha teve de lidar com a inquietação acorrentada ao tornozelo, que a sucessão de acontecimentos só fez garantir seu peso. Dou um exemplo: a morte do doutor Sócrates Brasileiro tornou mais delineada a sensação de que a caretice, a ignorância atrevida, o pragmatismo instrumental mais rastaquera e o rancor reacionário tomaram conta do país, talvez do mundo (bota na conta do efeito dramático), justamente no momento em que o sistema econômico e ideológico que lhe servem de base se esfarela a olhos vistos.
Da minha juventude, guardo uma noção que era partilhada de que estudantes deveriam ser rebeldes. Ou revolucionários, vá lá. Esperava-se deles que protestassem, que fizessem greve, invadissem reitorias e outros lugares “sagrados”, pichassem paredes, carregassem cartazes desaforados em passeatas, que chacoalhassem a calmaria aparente das coisas. Um cigarrinho de maconha? Ah, qualé… era até esperado e, na pior das hipóteses, dava margem a discursos edificantes paternos e mal disfarçados risinhos por conta de um logro relativamente inofensivo à lei.
Pois veja-se lá o que rendeu um cigarrinho de maconha na USP no ano de 2011. A coisa beirou a uma unanimidade conservadora que assusta. Um dos argumentos mais utilizados foi a legalidade da coisa, como se fumar um baseado fosse crime (e não é), como se a universidade não pudesse escapar à furia normatizadora, normalizadora e “produtiva” que tomou conta de quase tudo. Os legalistas esquecem-se ou desconhecem que a lei não é absoluta, caso contrário ainda estaríamos no tempo em que bruxas eram queimadas ou nobres poderiam matar pobretões por caçarem em suas terras. A lei muda e a mudança geralmente vem em decorrência da contravenção e da discordância. Pior: posso apostar meu dedo mindinho que as mais violentas reações (“reacionário” vem daí, não custa lembrar) vieram de gente que sonega impostos, fura fila, suborna guarda de trânsito, não registra em carteira a empregada doméstica ou pratica placidamente outros pecadilhos que fazem parte da cultura nacional. Sem falar naquele súbito apreço pela ação da PM no campus, a mesma PM que mata a rodo por aí, que é uma caixa de Pandora de ilegalidades, herdada de uma ditadura militar.
Me parece tão óbvio: não é com ordem e silêncio que se faz democracia. A democracia é uma “opera aperta”, um debate sem fim, uma colisão de interesses, uma mutação permanente. Não se chega à democracia, mas se caminha relutante e barulhentamente sobre ela. Resisto ao pessimismo (careta, claro) de achar que antigamente era melhor. Prefiro acreditar que seja apenas um recorte meu, um certo olhar torto que me faz ver o reacionarismo batendo à porta; até porque este foi o ano dos protestos, do Chile à Síria, do Egito à Espanha, de Wall Street ao Xingu. Prefiro pensar que vai mudar. Para onde, pouco importa, porque assistir a uma ordem ruir, ter o caminho pela frente – e a briga – e ver as tensões soltando faísca é o que há de interessante no mundo, a despeito do choro e do ranger de dentes dos que se agarram ao corpo do falecido.
P.S.: este post é uma opera aperta também. Ainda quero acrescentar coisas, à medida em que tiver vontade. Nem falei ainda da má qualidade intelectual do discurso dos conservadores!
P.S. 2: Havia pensando em escrever sobre a má qualidade intelectual do discurso dos conservadores, mas já o fizeram – e muito bemn feito! Dá pra ler aqui: “O diálogo impossível com o conservadorismo antidemocrático”, no Dispersões, Delírios e Divagações, blog do Fabiano Camilo.































