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Ano bom, ano ruim: praia, democracia, USP, Sócrates e caretice

29/12/2011
Alice e o gato

Ilustração de John Tenniel.

Pode um ano ter sido tão bom para mim e, ao mesmo tempo, tão ruim? Pode.

Explico: tou construindo uma bela casa na praia, na cidade, aliás, em que estou morando nos últimos 10, 11 meses, com raríssimas idas ao inferno paulistano. Com o pé na areia, tirei um ano sabático, em que a única preocupação foi escrever três livrinhos de filosofia para ensino médio no primeiro trimestre. E escolher azulejos e pisos e torneiras e a parte bela da obra.

Por outro lado, uma  atenção dispersa como a minha teve de lidar com a inquietação acorrentada ao tornozelo, que a sucessão de acontecimentos só fez garantir seu peso. Dou um exemplo: a morte do doutor Sócrates Brasileiro tornou mais delineada a sensação de que a caretice, a ignorância atrevida, o pragmatismo instrumental mais rastaquera e o rancor reacionário tomaram conta do país, talvez do mundo (bota na conta do efeito dramático), justamente no momento em que o sistema econômico e ideológico que lhe servem de base se esfarela a olhos vistos.

Da minha juventude, guardo uma noção que era partilhada de que estudantes deveriam ser rebeldes. Ou revolucionários, vá lá. Esperava-se deles que protestassem, que fizessem greve, invadissem reitorias e outros lugares “sagrados”, pichassem paredes, carregassem cartazes desaforados em passeatas, que chacoalhassem a calmaria aparente das coisas. Um cigarrinho de maconha? Ah, qualé… era até esperado e, na pior das hipóteses, dava margem a discursos edificantes paternos e mal disfarçados risinhos por conta de um logro relativamente inofensivo à lei.

Pois veja-se lá o que rendeu um cigarrinho de maconha na USP no ano de 2011. A coisa beirou a uma unanimidade conservadora que assusta. Um dos argumentos mais utilizados foi a legalidade da coisa, como se fumar um baseado fosse crime (e não é), como se a universidade não pudesse escapar à furia normatizadora, normalizadora e “produtiva” que tomou conta de quase tudo. Os legalistas esquecem-se ou desconhecem que a lei não é absoluta, caso contrário ainda estaríamos no tempo em que bruxas eram queimadas ou nobres poderiam matar pobretões por caçarem em suas terras. A lei muda e a mudança geralmente vem em decorrência da contravenção e da discordância. Pior: posso apostar meu dedo mindinho que as mais violentas reações (“reacionário” vem daí, não custa lembrar) vieram de gente que sonega impostos, fura fila, suborna guarda de trânsito, não registra em carteira a empregada doméstica ou pratica placidamente outros pecadilhos que fazem parte da cultura nacional. Sem falar naquele súbito apreço pela ação da PM no campus, a mesma PM que mata a rodo por aí, que é uma caixa de Pandora de ilegalidades, herdada de uma ditadura militar.

Me parece tão óbvio: não é com ordem e silêncio que se faz democracia. A democracia é uma “opera aperta”, um debate sem fim, uma colisão de interesses, uma mutação permanente. Não se chega à democracia, mas se caminha relutante e barulhentamente sobre ela. Resisto ao pessimismo (careta, claro) de achar que antigamente era melhor. Prefiro acreditar que seja apenas um recorte meu, um certo olhar torto que me faz ver o reacionarismo batendo à porta; até porque este foi o ano dos protestos, do Chile à Síria, do Egito à Espanha, de Wall Street ao Xingu. Prefiro pensar que vai mudar. Para onde, pouco importa, porque assistir a uma ordem ruir, ter o caminho pela frente – e a briga – e ver as tensões soltando faísca é o que há de interessante no mundo, a despeito do choro e do ranger de dentes dos que se agarram ao corpo do falecido.

P.S.: este post é uma opera aperta também. Ainda quero acrescentar coisas, à medida em que tiver vontade. Nem falei ainda da má qualidade intelectual do discurso dos conservadores!

P.S. 2: Havia pensando em escrever sobre a má qualidade  intelectual do discurso dos conservadores, mas já o fizeram – e muito bemn feito! Dá pra ler aqui: “O diálogo impossível com o conservadorismo antidemocrático”, no Dispersões, Delírios e Divagações, blog do Fabiano Camilo.

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Primeiras impressões litorâneas

01/02/2011

A primeira coisa estranha numa pequena cidade litorânea é o tempo. Seja porque as areias que o marcam estejam em casa, ou porque não há aquela piracema incessante de automóveis (cópirraite do fenômeno automobilístico: AA), o fato é que o tempo é outro, em que os afazeres compactam-se na virtualidade desse escorrer de horas, minutos e segundos. Não, segundos, não. Segundos não são contados na minha praia.

Faço compras no mercado, bebo um refrigerante desaforadamente cosmopolita em frente ao mar, compro um chapelão na lojinha pra turistas, pago umas contas no banco (argh! síndrome de abstinência de internet!), saio à cata de plugs-e-fios-e-coisas nos armazéns de tudo-um-pouco, mais um sorvete lento de banana no Rochinha, volto à casa cansada pela avenida da praia e… apenas uma hora e meia se passou.

O que houve com o tempo paulistano? Não quero nem saber.

Outra de minhas preocupações é estética, por assim dizer. Estava morrendo de medo de largar saltos altos e anéis gigantes e batom e a dignidade indumentária, mas me pego zanzando pelas ruas de bermuda e chinelos. Pra não ficar totalmente no à-vontade que enfeia, reforcei o estoque de vestidos leves, largos, longos, moles e finos que voam com o vento sem fim desta terra. Os cabelos? Quem os tem ondulados, como eu, que esqueça os pudores e se deixe descabelar/molhar/secar várias vezes ao dia.

A casa está no reino do provisório e assim ficará por um bom tempo, enquanto espero pela construção do meu château. Imóvel alugado em cidade praiana já vem mobiliada e é algo entre ofensiva e confortável a sua decoração de beliches e restos descombinados de outros lares e outras gentes. Uma mão de tinta nas paredes, um empilhamento básico de móveis na indefectível edícula e mais ou menos passa a ser a “minha” casa, com meus sofás ainda tão urbanos…

Ah, sabe o chapelão? Também voa e me faz correr atrás dele daqui pra lá. Dá umas paradinhas na areia pra me enganar e – vupt! – lá se vai de novo. Será que se eu amarrar com uma fita ficarei muito parecida com uma camponesa vietnamita?

Hoje voltei para São Paulo, com a gatinha miando sem parar dentro do carro. Voltei para três dias paulistanos, em que nem o trânsito chega a incomodar, porque já tou quase com pé na areia de novo. Iludo-me pensando que a gata irá feliz serra abaixo, mas sei que a miadeira será igualmente pungente. Já eu irei feliz.

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Coisa de mulherzinha: o “cocktail ring”

03/01/2011

Anel de coquetel: o primeiro do ano já está na minha mão.

Anéis gigantescos são meu vício há muitos anos e não saio de casa nem para ir à padaria se não estiver com um deles na mão esquerda (sei lá o porquê de preferir esse lado).

Ano novo, casa nova, cidade nova, start no primeiro dos três livros encomendados. Não deu pra resistir e reforcei minha arca do tesouro me presenteando com o exemplar aí à esquerda, que tem uma enorme mariposa de 5 x 3,5 cm. Foi comprado na FernStreet Design, que vende bijouterias no estilo steampunk e vintage. Dou o link sossegada (clica no nome da loja) porque o atendimento foi ótimo e chegou direitinho.

cocktail ring virou moda nos anos 40 e 50, mas li por aí que o nome surgiu durante a Lei Seca nos Estados Unidos, quando as mulheres seguravam seus drinks ilegais com estilo, ostentando uma jóia imensa e valiosa na mão, em festas onde eram servidas bebidas alcoólicas clandestinamente. Teatral, não?

Eu prefiro um só....

Como usar?

Não há regra rígida. Só não se pode descuidar das unhas, porque o acessório chama a atenção. Esses anéis portentosos e cheios de glamour dão um up na autoestima e em qualquer produção basiquinha. Dispensam outro adereço, ainda mais se forem peças preciosas, muito grandes ou de design que valha a pena valorizar. Mas quem gostar, que use com pulseira – e, nesse caso, só não dá pra engolir tudo “combinandinho”, tipo “conjuntinho”.

Dá para usar vários anéis na mesma mão, tomando cuidado para que fique um jogo legal em proporção e estilo.

... mas podem ser vários.

Repare na foto à esquerda: anéis de diferentes formas, num conjunto equilibrado pela ausência de cor e pelo uso de peças com mesmo tamanho, material e acabamento. Um toque de brilho, leveza e contraste sutil foi dado pela única peça de vidro incolor. Harmonia na diferença é o truque.

Abaixo, modelos bem parecidos com alguns dos que tenho (o incolor e o vermelho são idênticos). Minha coleção inclui dois poison ring, com caixinhas que se abrem para veneno. Ou adoçante em pó, dependendo do humor ou da companhia.

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Adiós, sampa. Olá, mar.

10/12/2010

Este blog nunca teve personalidade. Ou, talvez, tenha muitas. Defeito de nascença. Começou falando sobre sexo, mas sexo, como foco ou eixo da escrita, logo se mostrou desinteressante, pouco, limitado e limitante.

Depois, passei para as críticas de cinema, sempre relacionadas à literatura, um quebra-cabeça muito mais exigente e divertido, mas que demanda um certo esforço de pesquisa que nem sempre tenho saco pra fazer.

Muito provavelmente, essa instabilidade do blog se deva às incertezas desses últimos quatro anos, período babélico em que  tive que lidar, tudo-junto-ao-mesmo-tempo-agora com a reinvenção total da vida profissional (numa idade em que o senso comum consideraria o da colheita dos frutos da estabilidade), um mergulho mais profundo na vida acadêmica, um acidente na vida amorosa (o que considero o de menos, disparado) e, sobretudo, com um jeito diferente de olhar para mim mesma, de ir serenando em meio ao caos. O que não quer dizer que tenha sido fácil.

Agora, deixo São Paulo pra viver no meu paraíso particular junto ao mar. A bem da verdade, nem tão particular assim, já que praticamente estamos, eu, amigos e familiares, montando uma colônia de paulistanos desgarrados na cidade. Resolvi que, vivendo das letras mesmo antes de as escrever (bendito adiantamento da editora!), não tenho a menor necessidade de ficar cercada de congestionamento, barulho incessante e poluição.

É até esquisito o blog permanecer inabalável e “silencioso”, enquanto despacho móveis, embalo livros, brigo com os pedreiros que estarão construindo a casa nova e rodo o mundo atrás da porta de entrada dos sonhos (literalmente, porta de madeira mesmo. Meus sonhos estão bem concretos. E cimento. E cal).

Tanta coisa a dizer… e eu de novo sem saber por onde (re)começar.

Desconfio que este espaço aqui continuará mutante. E, agora, cheio de areia. Da praia, não da obra.

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“A Origem”: o mergulho no sonho prosaico

26/08/2010

Sonho e poesia são irmãos milenares que ganharam um caçulinha temporão, o cinema. Na virada do século XX, Freud mostrou como certos processos de elaboração dos sonhos criam uma espécie de quebra-cabeça feito de alianças, dissimulações e revela/esconde das imagens, mascarando o seu significado. Esse tour de force das combinações imagéticas é o próprio mecanismo da imaginação em funcionamento. A matéria-prima da criação artística, portanto.

As evidências de parentesco são várias: o jogo de significados faz do sonho uma metáfora, do mesmo modo que faz da poesia e do cinema linguagens metafóricas. O devaneio, aquele “sonhar acordado” em que nos deleitamos com pensamentos errantes vagueando em espaços indefinidos, tem uma linha direta com a ficção e a arte. Durante os sonhos, é como se a mente nos apresentasse um “filme” que nos mantém em estado de suspensão da vigília, como ocorre quando viramos espectadores de cinema ou leitores de poesia ou romance –  há uma espécie de privação temporária do tempo e do espaço, acontecem deslizamentos de significados, abre-se espaço para epifanias, enlevos e enigmas.

Inúmeros livros e trabalhos acadêmicos tratam das relações entre sonho, poesia e cinema e muitos deles abordam os pontos que apenas pincelei ligeiramente acima, o suficiente para justificar meu incômodo com o filme A Origem (“Inception”). Não que A Origem seja um filme ruim, se o tomarmos como entretenimento. É uma bem elaborada espécie de Missão Impossível (des)onírica, cujos pontos fortes são ação vertiginosa, muitos efeitos especiais e montagem intrincada. Em relação a essa última característica, o diretor Christopher Nolan repete o artifício que usou em Amnésia (“Memento”), de 2000, em que a montagem tentava atribuir alguma complexidade ao enredo. Desta vez, acrescentou-se à fórmula o questionamento da realidade (tema muito explorado pelo cinema de uns anos pra cá), para dar um toque filosófico à correria e às explosões.

Exatamente por conta da montagem, a narrativa balança um pouco ao cair num “expliquismo”. As falas das personagens tentam tornar didático um roteiro que coloca sonhos dentro de sonhos dentro de sonhos, cujo fio que os liga é o cumprimento da tarefa atribuída ao grupo de falsificadores de pensamentos chefiada por Don Cobb, personagem de Leonardo Di Caprio. Aliás, muito parecido com aquele que interpretou no recentíssimo Ilha do Medo (“Shutter Island”) – se bem que personagens de Leonardo DiCaprio são sempre parecidos por vício de origem.

Voltemos ao incômodo: em A Origem, os sonhos e os sonhos-dentro-dos-sonhos são insipidamente semelhantes à realidade da narrativa. Sonhos de business, de lógica cartesiana, de agenda, de missão a cumprir, em que o prosaísmo impera (claro, o tanto quanto pode ser prosaica uma avalanche de neve). Prosaico no sentido de déjà-vu e também no de ausência de dimensão poética. No mundo onírico do filme, praticamente inexistem os aspectos da representação dos sonhos como habitualmente vemos nas artes, herdados do surrealismo.

É pouco para os sonhos, que amargaram oito séculos de ostracismo. A partir do século XVI, os modernos varreram o onírico para o território do sobrenatural e da ignorância popular, desqualificando sua linguagem como sem sentido, numa época de afirmação da mentalidade científica e racional em contraposição ao que foi entendido como misticismo medieval. Descartes chegou mesmo a considerar o sonho um “erro”. Os freudianos recuperaram o valor da imaginação simbólica como fonte de conhecimento, embora outros trabalhos já apontassem para isso, inclusive nas artes e na literatura. Os escritores românticos, por exemplo, com suas naturezas tempestuosas e narrativas góticas, já indicavam para algo que, posteriormente, viria a ser chamado de inconsciente.

Faltou arrebatamento, faltou surpresa, faltou linguagem simbólica, faltou arte. É o que me deixa perplexa diante da fartura de elogios que filmes como A Origem e Avatar têm arrancado da crítica especializada. São divertidos? Sim. São bem feitinhos? Sim. Mas é matéria de menos para tanto louvor.

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Nota: É claro que a escolha do “sonho prosaico” não se deu por acaso. Sobre as implicações ideológicas de A Origem, há um excelente texto do Rodrigo Cássio, no blog Vistos e Escritos, intitulado “A impotência do homem e do mundo”. Vale a pena ler aqui.

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Dr. Parnassus: pacto com o demônio e elogio à literatura

09/08/2010

“Saciemo-nos no efêmero momento,
No giro rápido do evento!”
Fausto, Goethe

Filmes do Terry Gilliam são uma festa para um crítico que conheça alguma coisa de literatura e arte. Há um sem-número de referências a obras e períodos artísticos, de modo que fica complicado escolher um caminho para o texto. Surrealismo, pacto fáustico, poética, linguagem, barroco renascentista, relações com ocultismo, crítica social, crítica de viés psicanalítico, contraponto ao cinemão de efeitos especiais… tanta coisa pra se ver e comentar!

É uma pena que O Mundo Imaginário de dr. Parnassus tenha sido pouco visto – e mais: dá para imaginar o que Terry Gilliam e o excelente roteirista Charles McKeown teriam feito com Alice no País das Maravilhas, cuja matéria-prima é a própria literatura do romantismo, e que Tim Burton não logrou fazer.

Escolhi dois pontos para comentar: a relação do filme com Fausto de Goethe e o indisfarçável elogio à palavra poética.

Antes, uma resenha: o milenar Dr. Parnassus (Christopher Plummer) lidera uma pequena e miserável trupe de teatro mambembe, que vaga por uma Londres sombria. Para ganhar a imortalidade, fez um pacto com Nick, o diabo (Tom Waits, que praticamente se especializou em personagens estranhos). Entram em cena duas premissas clássicas do pacto fáustico: o prazo e o preço. O pactário, no caso, deve entregar sua filha quando a menina completar 16 anos. Nas vésperas do dia de pagamento do pacto, a trupe salva de um enforcamento o desmemoriado Tony (o falecido Heath Ledger) e Parnassus vê nisso um sinal de ajuda para salvar a filha, ao mesmo tempo em que a narrativa insinua que há algum tipo de ligação entre  o estranho misterioso e o diabo. A interpretação ambígua de Ledger e sua substituição por Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell em determinadas cenas contribuem para manter a incerteza (uma solução que salvou a produção após a morte do ator).

Pois bem. O tema do pacto fáustico é recorrente na literatura. Uma das primeiras aparições do mito está no Evangelho de Mateus, quando Satanás diz a Jesus algo como “se me adorares, tudo isso será teu”. Mais recentemente, Fernando Pessoa escreveu seu Fausto e Guimarães Rosa fez do “pauto” de Riobaldo com o demônio um dos fundamentos de Grande Sertão: Veredas. A versão mais famosa é o drama Fausto, de Goethe, escrito em pleno romantismo, entre o final do século XVIII e começo do XIX; e quando se fala em romantismo e ottocento, não tem como não lembrar de industrialização, consumo, ciência e ética do trabalho. Terry Gilliam sabe disso.

O Dr. Parnassus do filme é uma releitura do Dr. Fausto. Mais precisamente, trata-se de uma inversão. O traje de cavalheiro vitoriano usado pelo diabo Nick nos remete diretamente ao Fausto goethiano, encarnação da modernidade, ávido pelo progresso, pela velocidade, pela produção, pelo devir – a própria negação do que é permanente. Bem longe daqueles tempos de utopia moderna, Gilliam e McKeown criaram o avesso disso: Dr. Parnassus é a representação da perenidade e do arcaico, daquilo que é fundamental, incluindo aí (e principalmente) toda a tradição literária que herdamos da Antiguidade. Não é à toa que “Parnassus” é a versão em língua inglesa para “Parnaso”, nome do monte onde habitariam o deus Apolo e as musas, aquelas que falam pela boca dos poetas. A fonte da poesia, portanto. Vale lembrar ainda que o teatro também era considerado poesia pelos antigos, de modo que o grupo ambulante do milenar doutor é também uma alusão à literatura. Como se não bastasse, no começo do filme, durante o primeiro encontro com o diabo em um templo oriental, no qual monges suspensos em tapetes voadores falam sem parar, Parnassus diz, respondendo qual seria a sua função ali: “Nós contamos a história eterna. A história que sustenta o universo. A história que sem ser ouvida nada existiria”. O que me lembra a frase de Fiorin, um renomado linguista brasileiro: “Só existe no mundo o que nossa língua nomeia”.

Parnassus não é “bom” (chega mesmo a ser um tanto amoral, alheio e passivo), assim como o diabo não é “mau”. Forçando um pouco a barra, dá para ver também nisso a representação da indiferença da literatura ao que pode ser considerado o bem, o justo e o belo – razão pela qual Platão expulsou os poetas da polis. Mas Parnassus é indiferente também a dinheiro, glória ou poder mundano; o que ele ganha com o pacto é a imortalidade, que segue vivendo da mesma maneira arcaica como sempre viveu. O diabo sugere viagens, curso de idioma, compras… em vão. Também não é por acaso que O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus seja o filme de Gilliam mais parecido com o injustamente esquecido As Aventuras do Barão de Munchausen, de 1988, cujo enredo conta igualmente com uma companhia teatral itinerante e faz uma bem-humorada crítica ao racionalismo rastaquera da modernidade (a tal razão instrumental da escola de Frankfurt).

Quem entra no espelho do Dr. Parnassus tem acesso a um mundo (mais) onírico, que mistura a mente do velho doutor aos desejos do visitante, o que pode render uma bad trip de vez em quando. Ou uma visão do paraíso. Também aqui há uma alusão à literatura, mais especificamente à epopéia Paraíso Perdido, do poeta neoclássico inglês John Milton, publicada no século XVII, que conta a queda de Lúcifer e a expulsão dos homens do paraíso. No poema, após a sua queda, Lúcifer percebe que, apesar de tudo, sua mente permanecia inalterada, ao mesmo tempo em que detinha o poder transformador, não importando onde estivesse. Para Milton, portanto, paraíso e inferno estão na mente – só na mente – e no filme o diabo interfere nas “viagens” que acontecem ali.

Se o inferno está na mente, isso explica porque Parnassus e Nick não podem viver separadamente, passando o tempo com apostas por almas, eternidade afora. Mas não é o único motivo: se nada existe sem a palavra, nem mesmo o diabo existiria se o guardião da história que sustenta o universo não o tivesse inventado.

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Nota: Em seu blog, o André Renato fez uma belíssima análise do filme relacionando-o à teoria dos sonhos de Jung. Também abordou o surrealismo, típico de Terry Gilliam (e penso até que a estética do diretor seja uma espécie de surrealismo mezzo barroco renascentista). Por fim, falou sobre a caracterização de Tony, personagem de Heath Ledger, como um trickster, um tipo de ser mitológico “malandro”, tal como Loki, saci, exu ou bufões medievais. Vale a pena ler aqui.

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Em “Mary e Max”, os monstros somos nós

20/07/2010

Vou lá no blog Quadrado dos Loucos e volto sempre ruminando umas ideias. Li a crítica a Mary e Max, longa-metragem australiano em stop-motion de massinha, escrito e dirigido por Adam Elliot.

Em seu texto, o Bruno Cava bateu na tecla do estilo grotesco usado na animação. De fato, é a sua mais evidente característica e o grande charme visual do filme. Como diz o Bruno, “tudo em Mary e Max é grotesco. As feições, os trejeitos, os animais de estimação, os cenários, a fotografia: do marrom-barrento das cenas na Austrália (Melbourne?) ao preto-e-branco sujo de Manhattan”.

É precisamente sobre o grotesco que me estendo um pouco mais aqui, porque a escolha do estilo não é fortuita. Pelo contrário, tem tudo a ver com o filme.

O grotesco é tudo o que na arte aparece como ridículo, deformado, assustador, escatológico, abjeto, animalesco, inumano ou monstruoso. Pode estar em coisas tão distintas quanto gárgulas no alto de torres, paredes de igrejas medievais repletas de esqueletos, quadros de Goya retratando sabá das bruxas, poemas de Baudelaire, vampiros, monstros e fantasmas de romances e filmes de terror, fotografias de matéria putrefata e vômito de Cindy Sherman e até mesmo na mulher arroto do Pânico na TV e crimes sangrentos nos telejornais, se incluirmos a indústria cultural. Simplificando, a ideia do grotesco é situar o mal no outro, naquilo que é diferente.

A animação de massinha e o stop-motion foram uma opção perfeita neste filme: têm um jeitão inacabado, disforme e descontínuo, adjetivos que podem ser igualmente aplicados ao grotesco. Também foram ótimas escolhas as cores branco sujo, cinzas e marrons, perfeitas para esse universo tão “terroso”.

Há uma esquisitice geral, da aparência das pessoas e animais à bizarrice do comportamento, não só da dupla central de excluídos, a menina feiosa Mary e o quarentão problemático e obeso Max, mas também dos “normais”. Como todo produto vinculado à estética grotesca, o filme é ambíguo: incomoda pela sensação de estranheza, ao mesmo tempo em que é incomodamente familiar.

O humor do filme não serve de alívio pelo riso, ao contrário de Shrek, por exemplo, em que as escatologias são suavizadas por serem paródias da vida “normal” transformadas em “coisa de ogro”. O diferente é mais diferente do que nunca em Shrek. O cômico em Mary e Max é feito de ironias, sarcasmo e compassiva identificação, de modo que o enredo consegue abordar com delicadeza e graça temas incomuns em animações, como doenças mentais, alcoolismo, solidão, religião, homossexualidade, bullying, cleptomania, compulsão por comida e outros.

Esse tratamento agridoce às esquisitices está aliado à “monstrificação” daquilo que é normal, na contramão do que frequentemente comete-se na modernidade, em que a regra é tratar as diferenças cultural, racial, ideológica, sexual etc. como aberrações – os exemplos disso são a perseguição aos judeus pelo nazismo, o apartheid, o epíteto de “comedores de criancinha” dado aos comunistas ou a demonização dos islamitas.

Em Mary e Max, o normal não existe. Ainda assim, há os “mais anormais”, como os protagonistas: uma menina que não é bela e um homem que não é produtivo, dois pecados capitais no mundo contemporâneo. Dessa forma, o filme desnuda uma exclusão mais “refinada” e menos palpável, em que ser branco, classe média e ocidental não são (e talvez nunca tenham sido) garantias de entrada no paraíso da normalidade.

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Polêmica religiosa como estratégia de marketing. Isso ainda funciona?

09/07/2010

Antes de mais nada, convém dizer que não sou católica, nem cristã; sequer sou adepta qualquer tipo de crença religiosa ou deísta.

Mas quero comentar uma “polêmica” que andou na mídia por esses dias: a Igreja Católica acabou envolvida com um anúncio publicitário de lingerie, com a revista Playboy e com o mau gosto, tudo ao mesmo tempo.

No caso da revista, trata-se da versão portuguesa da Playboy, que está saindo de circulação por conta de capa e ensaio fotográfico que “homenageavam” o escritor Saramago. Nas fotos, um modelo representando Jesus Cristo junto a belas mulheres nuas. O pessoal da revista teria pretendido fazer uma releitura soft pornô da obra “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, do falecido autor português. Ao menos, essa é a argumentação destinada ao público. Evidentemente, a ideia que não se diz era a de inventar uma polêmica marqueteira travestida de transgressão sexual. Simplório.

O castigo veio a galope e teve a ver com a hierarquia corporativa – tal como na igreja, hierarquia é tudo nas empresas. Deu na mídia: “A Playboy Enterprises, que controla os direitos da marca no mundo todo, anunciou em comunicado enviado à imprensa hoje, que a filial portuguesa vai perder sua licença e terá que fechar as portas”. A revista Playboy, com todos os defeitos que se possa apontar em relação ao seu… ahn… jornalismo, tem um padrão que segue com entediante constância, de apreço ao bom-gostismo e que não costuma envolver polêmicas religiosas.

Já o imbroglio com a fábrica de lingerie é de outra cepa. O anúncio coloca uma mulher de calcinha e soutien em plena praça de São Pedro, no Vaticano, mostrando um crucifixo, à moda espanta-vampiro, a um homem de costas, vestido para lembrar um padre. No alto, a cereja deste bolo de mau gosto: a frase “Pedofilia, não”. Tosco na estratégia. Vulgar na realização. Uma apelação hipócrita que mistura apelo a sexo com bom mocismo de ocasião e um toque do vampirismo light que anda na moda.

A fábrica de lingerie soltou um comunicado repisando a velha ladainha de que “não teve intenção de ofender a Igreja Católica” e que a Itália (eles evitaram dizer “Vaticano”) teria sido escolhida “devido à beleza das locações”. Balela. O anúncio é claramente ofensivo – e não precisa ser um fiel de crença alguma para reparar. Há intenção nisso: tal como no exemplo da Playboy, o intuito era gerar polêmica, devidamente alimentada por press releases enviados aos jornalistas.

Os donos da marca e o povo da agência dizem agora que estão suspendendo a veiculação do anúncio. Pode até parecer que estão tentando remediar ou atender a um clamor da opinião pública (que não houve). Mas não se trata disso: a campanha pode sair do ar porque a visibilidade da marca foi mais do que garantida, tanto no lançamento dos anúncios, quanto durante a “polêmica” e também agora, na suposta retratação. Falem mal, mas falem de mim. Aliás, quem não se lembra do slogan da marca? “Você não sabe do que uma D… é capaz”. Por lucro? Sim, sabemos.

Vergonha alheia de publicitários e jornalistas… E aposto que haverá quem veja “repressão ao sexo” no desfecho desses casos de puro marketing. É a grana que conta, meus caros.

Fontes:
Exame
Folha Uol
Meio&Mensagem

Anúncio da fábrica de lingerie: mau gosto e má fé

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No país das maravilhas domadas

16/05/2010

“E onde está a Alice original? Não está. ‘Eu não queria ser a Alice errada’, desculpa-se a personagem principal, ré confessa”.

Pincei essa pérola acima da crítica do Bruno Cava ao filme Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton. Aí está uma boa síntese de um trabalho que tem muito mais de Disney do que de Lewis Carroll.

O Bruno discorreu acertadamente sobre o descompasso entre efeitos visuais e a proposta do filme, as obviedades e clichês do roteiro, o gosto de plástico do resultado e a sensaboria das interpretações. Concordo com tudinho, mas serei um pouco menos má, admitindo que dá pra tomar o filme como passatempo, se a gente não perder de vista que se trata de uma aventura típica de blockbuster com mocinhos e malfeitores. Ou seja, tudo que a obra de Lewis Carroll não é. E quando se trata de Tim Burton pegando como matéria-prima um clássico da literatura fantástica e do nonsense, espera-se mais do que isso.

Publicado em 1865, Alice no País das Maravilhas foi mergulhado e enxaguado nas águas do Romantismo, movimento que surgiu lá pela metade do século XVIII tanto como reação ao classicismo, quanto à ética do trabalho, ao racionalismo e aos valores burgueses.

Alice e a Rainha Vermelha, ilustração de John Tenniel para "Alice através do Espelho" (1872)

Uma das vertentes do Romantismo lançou mão do terror, do sobrenatural e do monstruoso para se contrapor a uma sociedade baseada na normalidade e na razão. Parte desta produção desembocou no romance gótico, muito em voga na época de Lewis Carroll. Sente só o espírito da coisa na listinha de obras inglesas que segue: O Castelo de Otranto (1764), de Horace Walpole, Frankenstein (1820), de Mary Shelley, O Morro dos Ventos Uivantes (1847), de Emily Brontë, Carmilla (1872), de Sheridan le Fanu, O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde (1886), de Robert Louis Stevenson, O Retrato de Dorian Gray (1891), de Oscar Wilde, A Ilha do Dr. Moreau (1896), de H. G. Wells, Drácula (1897), de Bram Stoker. A lista é muito maior (apontei apenas alguns dos mais conhecidos) e inclui ainda os contos e novelas do norte-americano Edgar Allan Poe, publicados postumamente na Europa de 1852 a 1865, graças a Baudelaire.

Outro modo de bater de frente no racionalismo foi o nonsense, uma vertente muito explorada pelo Romantismo até mesmo no Brasil. Bernardo Guimarães – sim, aquele mesmo da cândida Escrava Isaura -, foi mestre na poesia pantagruélica, grotesca e obscena. Esse gênero, chamado de bestialógico ou poesia do anfiguri, apostava em jogo de palavras, livre associação de idéias e no absurdo. Cito aqui a pesquisadora brasileira Myriam Ávila, explicando que o nonsense “reside em algo que deixa o leitor suspenso entre o riso e a perplexidade, entre a estranheza e a identificação, como se aquilo ao mesmo tempo lhe dissesse respeito e não dissesse respeito a coisa alguma”.

Um doce pra quem adivinhar quem bebeu dessas fontes! Ele mesmo, Lewis Carroll. Infelizmente, diante de tanto bom mocismo, atos de heroísmo, luta do bem contra o mal, vilão de preto e rainha bondosa de branco, o pouco que restou no filme do nonsense do livro Alice no País das Maravilhas foi o poema “Jabberwocky”, recitado pelo Chapeleiro de Johnny Depp (que, aliás, estava a cara do Gato de Botas de Shreck se fazendo de meigo):

Desenho de John Tenniel para “Alice no País das Maravilhas” (1865)

“Era briluz. As lesmolisas touvas
Roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos. (…)”

(na célebre tradução de Augusto de Campos).

Lancei mão das referências literárias da época para deixar mais evidente a distorção do clássico de Lewis Carroll que surge nas telas. Não se trata, evidentemente, de exigir fidelidade total na adaptação de uma obra literária para o cinema, mas não dá aplaudir uma traição, como no caso desta versão de Tim Burton. Ainda mais coroada com a grande heresia final de transformar Alice numa aprendiz de capitalista. Os autores românticos todos se reviraram na tumba.

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Nota: No site da Ciência Hoje, há uma crítica muito boa da historiadora Keila Grinberg, que também faz objeções ao filme do ponto de vista histórico: “a Alice de Burton é a própria imagem do progresso no século 19″, diz ela.

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Ervas Daninhas, o filme

12/05/2010

Sei lá por que cargas d’água, a conversa nos comentários da postagem “O sexo e a fantasia de transgressor” acabou em cinema e eu, perplexa momentaneamente logo após assistir ao filme “Les Herbes Folles” (Ervas Daninhas), do Alain Resnais, não fazia a menor idéia do que dizer sobre ele. Aliás, sabia, sim: odiei e fiquei resmungando sobre as chatices do cinema deliberadamente produzido para ser cult.

Mas era tudo bobagem. “Não gostei” é a primeira coisa que me vem à cabeça e chega à ponta da língua toda vez que me deparo com algo que me inquieta. No fim das contas, ter assistido a “Les Herbes Folles” e sentir o desagrado está diretamente ligado ao post anterior, em que falo da impossibilidade de se achar algum fiapo de transgressão no sexo, no amor ou em outra esfera da subjetividade nos dias que correm.

Afinal de contas, em que fenda ainda se dá a transgressão? Esta pergunta não me abandona desde que escrevi o post anterior.

Em relação a “Les Herbes Folles”, concordo com o Bruno Cava, do Quadrado dos Loucos, quando diz que o filme revela “a estupefação do homem diante do tempo que resta”. Mas quero ir além: estupefação também diante da impossibilidade de transgredir.

Enredo: uma mulher cinquentona, dentista e que tem como hobby pilotar aviões, tem sua bolsa roubada. Um homem aposentado, já na terceira idade, encontra a carteira da mulher jogada no estacionamento de um shopping center e desenvolve uma obsessão pela proprietária, que se agrava a partir do momento em que ela se recusa a encontrá-lo. Lá pelas tantas, ele desiste de assediá-la e a situação se inverte: ela o procura e passa a seguí-lo pelas ruas. Basicamente, é isso, apresentado de maneira fragmentada, multicolorida, fake, entrecortada por memórias e referências ao cinema e oscilando entre drama e comédia sutil.

Brinquei nos comentários que eu estava quase fazendo cara de intelectual e falando sobre a associação da braguilha aberta com as ervas daninhas que brotam das fendas. Nem era tão brincadeira assim.

O filme se faz a partir do que há de incontrolável ou indomável na vida prosaica burguesa dos protagonistas, seja a imensa cabeleira vermelha dela ou o ar por vezes assustador dele. Não é à toa que ambos tenham a idade que têm, ele na terceira idade e ela, quase lá. O desconforto começa daí, do desajuste entre o comportamento dos dois protagonistas e o que se esperaria de pessoas daquela faixa etária e estrato social.

Ambos fazem uma aposta no que lhes resta de desejo e de “indomesticável” (que se mostra nas memórias que insistentemente aparecem). Vale o mesmo para a mulher dele, que vê com indisfarçável interesse a obsessão do marido e a aproximação da outra. E o que resta, no fim das contas, é pouco: a saudade da paixão por uma pessoa ou por qualquer coisa (paixão entendida aqui numa acepção mais ampla, de excesso, de desmedida). Essa aposta os leva a uma fugidinha da rotina no aeroclube e ao fim desastroso da aventura, não por conta de qualquer ousadia que poderia haver nisso, mas pelo constrangimento que a quebra da norma e do decoro provocou. Não lhes resta, portanto, nem mesmo um fim trágico, porque o filme recusa todas as convenções do gênero tragédia; até no final.

Esse (des)encontro dos dois me remete à comédia ou à poesia iâmbica da literatura clássica grega, em que o desejo e o amor nos mais velhos eram sempre motivo do riso e escárnio pelo ridículo ou grotesco da situação. A expressão dele quando se lembra da braguilha aberta lá no avião é tuuuudo!!! É quase como se dissesse: “que pena, não dá”. É o retrato da impossibilidade – e eu amo as impossibilidades.

Agora, lá vem SPOILER. Não leia se não quiser saber como o filme termina.

Por que morrem? Porque morrem. Porque a chegada da morte é arbitrária e não espera por final feliz, redenção, reviravolta, arrependimento, retorno, acerto de contas ou até mesmo uma apreensão do significado de qualquer coisa. O fim está sempre “fora do lugar”, tanto quanto o letreiro “fin” que aparece deslocado, antes do término do filme.

Nota de 16/05: Vale a pena ler o texto do Bruno Cava em seu brilhante blog, O Quadrado dos Loucos. A discussão que rolou por aqui sobre o filme (inclusive nos comentários, em que a coisa foi caudalosa e boa) continua por lá. As ervas daninhas estão se espalhando pra todo lado! : )

Les Herbes Folles (2009)
Direção: Alain Resnais
Com Sabine Azéma, André Dussolier, Mathieu Amalric, Emmanuelle Devos, Sara Forestier, Anne Consigny, Nicolas Duvauchelle, Edouard Baer e Vladimir Consigny

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